Abandono na hemodiálise aumenta dor de pacientes

Quem precisa de tratamento de hemodiálise em Betim, além de passar pelo enorme sofrimento que é a doença em si, é obrigado a suportar a...

imageQuem precisa de tratamento de hemodiálise em Betim, além de passar pelo enorme sofrimento que é a doença em si, é obrigado a suportar a situação de descaso em que se encontram os pacientes do Hospital Regional hoje. E as perspectivas, de acordo com pacientes e profissionais médicos da própria unidade, não são nem um pouco animadoras.

A reportagem de teve acesso a um mapa que revela um verdadeiro estado de descontrole e abandono no setor, além de um flagrante caso de falta de planejamento e de desperdício de verba pública.

De acordo com o documento, 15 usuários são mantidos confinados no setor de clínica médica, localizado no mesmo andar onde ficam pacientes contaminados com a superbactéria KPC, mantidos confinados, sem necessidade alguma, no setor de clínica médica. Eles aguardam uma “vaga fixa” para receber o tratamento através da máquina que substitui a função renal do paciente.

A lista, repassada ao jornal, confirma denúncias anteriores e expõe ainda mais a falta de ação por parte das autoridades de saúde de Betim, que, desde a gestão passada, não tomam medidas capazes de resolver o problema. O risco, segundo os pacientes, é muito grande. Eles temem ser contaminados por bactérias resistentes ou sofrer outros tipos de infecção, já que há pessoas que estão na unidade de saúde desde dezembro do ano passado sem, ao menos, receber alta médica ou poder passar datas comemorativas, como o Natal e o Ano Novo, em casa com a família.

Até agora, a única discussão ocorrida sobre o tema foi a possibilidade de encaminhar os pacientes para um tratamento em casa, porém, a medida aumentaria ainda mais os riscos com a saúde dos usuários. Reunião com gestores do hospital definiu incentivar os pacientes a optarem pela diálise peritoneal, a chamada “autodiálise”, feita em casa pelo próprio paciente ou por um familiar. Porém, esse tratamento apresenta um risco ainda maior de infecções. “É uma técnica que diminuiria a fila de espera no setor, mas que exige mais cuidado. Atualmente, o sistema municipal de saúde não tem equipe para treinar pacientes e familiares”, explicou um servidor, que pediu para não ser identificado.

A paciente Jeanne Maria da Silva, 41, internada há mais de dois meses, diz que a situação é lastimável. “Só surge uma vaga quando um paciente morre, é transplantado ou transferido. Quero ir para casa, pois, quando não estou na hemodiálise, fico ociosa e muito deprimida, correndo riscos de ter outra doença”, lamenta. Sua filha, Celiane Prado, conta que Jeanne não conseguiu liberação nem em seu aniversário. “Se ela tivesse a vaga fixa, poderia fazer o tratamento e voltar para casa”, destaca.

Ampliação do setor não sai do papel

Para o paciente Valdemar Batista, que também é presidente da Associação dos Pacientes Renais, Doadores e Transplantados de Betim (Asprebe), a solução para acabar com o déficit de vagas no setor é a inauguração de mais uma ala, que foi prometida ainda na gestão passada. Segundo ele, há dois anos, há vários equipamentos encaixotados em uma sala ao lado do salão principal da diálise que poderiam ser utilizados.

“Essa sala foi construída em 2012, com capacidade para receber até 200 pacientes por mês, mas, até hoje, não funciona. Isso demonstra a falta de comprometimento da prefeitura com os pacientes do setor. Enquanto não houver essa ampliação, vamos continuar tendo pacientes na fila de espera por ‘vagas fixas”, diz. Para Batista, que é paciente renal há 30 anos, o descaso se mantém por anos. “O gasto com pacientes que ocupam leitos comuns é muito maior. Além disso, estão vulneráveis a infecções. A situação da hemodiálise chega a ser desumana. Em dias de calor, a gente quase derrete, pois nem ar-condicionado existe no local”, protesta.