Cinco meses depois de estragos da chuva, moradores de Betim ainda sofrem com impactos

A chuva forte do início do ano causou transbordamento de rios e córregos e deixou cidades debaixo d'água.

30-06-2022
Foto: Gabriele Lanza / TV Globo

A chuva forte do início do ano causou transbordamento de rios e córregos e deixou cidades debaixo d'água. Cinco meses já se passaram e, em Betim, os moradores ainda estão sofrendo as consequências.

É o caso da aposentada Eunides Felizarda, que contou que o filho dela perdeu tudo. Sobrou somente um cômodo vazio e marrom, da cor da lama.

"[Ele] perdeu tudo. Ficou só a roupa do corpo porque não deu para tirar nada. Aí os pedaço estão tudo aí. Tem pedaço de guarda-roupa, os armários ficaram tudo, rebentaram tudo. As coisas que eram de madeira foram inchando dentro da água e foram abrindo. Depois que a enchente passou as coisas não prestaram mais. Até hoje eu não consegui comprar outras coisas e não sei quando que eu vou conseguir porque se eu for tirar do meu salário para poder comprar, vai ficar sem comer, né? Não tem jeito. É o salário de aposentada".

Moradores disseram que pouco foi feito para ajudar quem perdeu quase tudo.

"Como você pode ver aqui nem a lama da rua eles retiraram. Essa lama, o próprio povo, a própria comunidade, tirou das suas casas e eles nem recolheram. Depois desses seis meses, depois da chuva, os moradores não tiveram assistência nenhuma, tanto da prefeitura, nem da Vale. A prefeitura empurra para a Vale e a Vale, para a prefeitura, e o morador acaba sofrendo essas consequências: lama dentro da casa, rejeito", fala o líder de ação social do bairro Citrolândia, Wanderson de Souza Rodrigues.

Na horta da aposentada Miriam Matias Chaves, o que mais tem é lama e lixo.

"Eu estou aqui aqui, eu não tenho guarda-roupa. Eu estou dormindo no chão, meus netinhos, minhas roupas foi tudo foi por água abaixo, a roupinha das crianças. Graças a Deus vieram essas roupinhas aqui, que é pobre ajudando pobre". Eu fiquei sem eira e sem beira e estou passando praticamente à mingua".

A Miriam, o Wanderson e a Eunides são vítimas da enchente que atingiu Betim no começo de 2022. O MG1 mostrou em janeiro que a chuva forte fez as águas do Rio Paraopeba, do Córrego Bandeirinhas e da Represa Várzea das Flores invadirem as ruas da cidade.

O bairro Colônia Santa Isabel ficou praticamente submerso. Era difícil saber onde ficavam as ruas e onde eram as casas. No bairro Nossa Senhora de Fátima as ruas pareciam rios.

Foram quase 18 mil pessoas afetadas. Segundo a Prefeitura de Betim, 9.251 pessoas foram desalojadas e mais de 300 tiveram que ser encaminhadas para abrigos.

O pedreiro e eletricista Cristiano Carvalho Anjos morreu em um deslizamento de terra.

"Estava eu e minha esposa em casa, nós ouvimos o barulho, a minha esposa só gritou: 'Cristiano'. Nós vimos os cômodo em cima dele e ele se debatendo. A única coisa que eu fiz foi gritar para tirar ele o mais rápido possível, mas foi muita luta, nós tentamos, tentando de tudo o que foi jeito, salvar a vida dele, mas chegando no hospital, não conseguimos", relembra Wellington Teixeira Carvalho, primo de Cristiano.

Quem sobreviveu para contar a história está pedindo ajuda.

"Eu vou fazer 69 anos. Pra eu recomeçar é muito difícil, porque saúde a gente não tem. O salário não ajuda, é pouco. Então é difícil. É a vontade de Deus, a gente não pode passar na frente não", fala Eunides.

O que diz a Prefeitura de Betim

Leia a íntegra da nota:

"O último período chuvoso, ocorrido no mês de janeiro deste ano, deixou 9.251 mil pessoas desalojadas em Betim. Mais de 300 desabrigados foram encaminhados para abrigos disponibilizados pela prefeitura. A Defesa Civil registrou 2.234 ocorrências. As regiões mais atingidas foram a Colônia Santa Isabel, no Citrolândia, e o bairro Nossa Senhora de Fátima, na região Norte da cidade.

Grande parte das ocorrências registradas foi de alagamentos e deslizamentos de encostas. O município decretou estado de emergência e, para melhor atender as famílias desalojadas, regulamentou reajuste no valor do Auxílio Habitacional - que passou de R$ 450 para R$ 600. De acordo com a Secretaria Municipal de Ordenamento Territorial e Habitação, 163 famílias afetadas pelas chuvas do início de 2022 recebem, atualmente o benefício.

O município também deu continuidade ao acompanhamento das famílias que tiveram permissão para retornar às suas residências. Mais de 8.100 foram beneficiadas com ajuda humanitária que incluiu a entrega de kit alimentação, kit de higiene pessoal e kit dormitório (colchonetes, travesseiros, lençóis e, em alguns casos, cobertores). Ao todo, mais de 22,200 pessoas foram acompanhadas por um período de cinco meses.

Além do grande mutirão de limpeza e recuperação de vias nas áreas afetadas, a prefeitura mobilizou, nas ações pós-chuvas, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semmad), que montou uma equipe multidisciplinar para analisar água e lama provenientes das inundações, visto que traziam traços de minério de ferro. A suspeita é que os rejeitos sejam oriundos do rompimento da barragem Córrego do Feijão, da Vale SA, em Brumadinho, e que chegaram ao rio Paraopeba. O laudo será concluído em breve e, caso a suspeita seja confirmada, o município ajuizará ação conta a mineradora solicitando os reparos cabíveis. É importante ressaltar ainda que, em fevereiro, Betim recebeu a visita de uma equipe do Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid) - vinculado à Universidade Federal do Paraná -, que, em sondagem paramentada preliminar de diversas áreas inundadas no município, apontou que, de fato, as lamas continham rejeito de minério.

Desde 2020, a Prefeitura de Betim vem realizando obras de contenção de encostas em áreas de risco. Ao todo, 23 áreas estão sendo contempladas com intervenções. As obras foram divididas em duas etapas e abrangem 20 bairros".

O que diz a Vale

Leia a íntegra da nota:

"A Vale esclarece que, até o momento, pelas análises técnicas realizadas, não é possível constatar vinculação entre o rompimento da barragem B1, em Brumadinho, e os impactos dos alagamentos na bacia do Paraopeba, causados pelo extraordinário volume de chuvas

Em caráter humanitário, logo após as enchentes, a empresa atendeu a diversas solicitações de prefeituras da bacia do Paraopeba, além de entregar mais de 480 mil litros de água, além de cestas básicas, produtos de limpeza, higiene pessoal, colchões e EPIs.

A Vale reforça seu compromisso com as comunidades onde atua e se solidariza com a população atingida pelas fortes chuvas".