“Só tendo fé em Deus”. Foi com essa frase que um idoso que sofre de problemas cardíacos tentou tranquilizar a equipe de reportagem, na noite de quarta-feira (28), ao vê-la se empenhando em ajudar o vigilante Fernando Alves de Castro, 29, que buscava atendimento no Hospital Regional.
Depois de denúncias feitas por servidores da unidade na semana passada, a reportagem decidiu acompanhar o atendimento na unidade e constatou que a situação ainda é precária. Vários pacientes aguardaram horas na fila e, quando foram atendidos, tiveram que ficar no corredor, porque faltavam vagas no pronto-socorro.
O vigilante que a reportagem encontrou sofria com muita dor nas costas e na região do abdômen, devido a uma hérnia inguinal. Chorando muito, ele aceitou que a nossa equipe o acompanhasse, sem se identificar, até a sala de triagem do pronto-socorro da unidade, que, recentemente, passou a funcionar com o Sistema de Triagem de Manchester (protocolo que classifica através de um sistema de informática o atendimento por riscos).
O vigilante chegou ao hospital no início da noite, depois de percorrer várias unidades em busca de atendimento, quando preencheu uma ficha e conseguiu uma senha para atendimento. Ele era o décimo na fila de espera. Uma hora depois Castro passou pela triagem.
Sem saber que estava sendo gravada, a enfermeira responsável pelo atendimento do vigilante perguntou a ele o que sentia e, quando questionada pela equipe de reportagem se ele seria atendido por algum médico, ela disse que “o sistema (do protocolo de manchester), muitas vezes, é ingrato”. “Lanço as informações do paciente no computador, e é ele quem classifica se o caso é emergência, muito urgente, urgente, pouco urgente ou não urgente”, explicou.
Minutos depois, ela colocou uma pulseira de cor amarela em Castro (que significa urgente segundo o protocolo) e disse que ele seria encaminhado para o pronto-socorro. Mais uma vez, questionada se aquilo significava que ele seria atendido, ela riu e disse que dependeria da disponibilidade de médicos no hospital.
Castro foi colocado nos corredores da unidade chorando de dor, pois não havia vaga. “A sala está lotada. Ele terá que ficar no corredor”, disse uma médica à enfermeira. Até o início da tarde de quinta (29), ele se encontrava no mesmo local sem perspectiva de ser operado. “Eu já não sei mais o que fazer, porque não tenho condição de pagar um plano de saúde. Era para ter sido operado em maio, mas não havia médico”, disse.
Quem também esperava por atendimento há horas era Raíssa Gonçalves de Paiva, 17. Grávida de 9 meses, ela sentia com contrações e estava com sangramento. “Chegamos aqui às 17h, fizemos a ficha e, depois de uma hora, ela foi avaliada. Na triagem, eles colocaram a pulseira de cor amarela nela e pediram para esperar até 20h. Estou com medo de perder a minha filha”, desabafou Lucas Júlio Cardoso, marido de Raíssa. O casal é de São Joaquim de Bicas.
Funcionários criticam a instalação do protocolo no Regional. “O Regional era um hospital de portas abertas apenas para urgência, ortopedia, Samu, BR Vida e obstetrícia. Essa triagem deve ser feita nas Unidades de Atendimento Imediato (UAIs), caso contrário, o atendimento ficará sobrecarregado”, disse um servidor, que pediu para não ser identificado.
Resposta
A assessoria de imprensa da prefeitura informou, através de nota, que todos os pacientes que procuram o Regional são classificados por meio do protocolo de manchester, que define as prioridades de atendimento. “Os casos mais graves são atendidos no hospital, e os demais, que não demandam atendimento da unidade, são referenciados para outras unidades de saúde, como Unidades de Atendimento Imediato, por exemplo, onde a classificação de risco também é feita”.


