Familiares de pacientes que tiveram negado o fornecimento de remédios pela Secretaria Municipal de Saúde reagiram com revolta à notícia de que o ex-secretário municipal de Educação Carlos Abdalla, dono de uma grande rede de ensino particular, recebeu R$ 43.630 em medicamentos.
O ex-secretário não tem residência em Betim, mas, em novembro de 2013, recebeu dez caixas de Voriconozol 200 mg, um remédio que não está na lista do SUS e, para ser fornecido, precisa ser encomendado.
Atualmente, ele se encontra internado no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, considerado o mais equipado do país e conhecido por tratar de chefes de Estado, como Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula.
Sorte adversa teve a dona de casa Maria Izabel Gomes Santos, 41, que luta há meses para conseguir tratar o filho Diego Gomes Teixeira, 20. Portador de autismo, alteração que afeta a capacidade de comunicação e de socialização, o jovem precisa de um anestesista e remédios especiais para fazer um tratamento dentário.
A situação é crítica. Segundo a dona de casa, ela não possui recurso financeiro para enfrentar os custos do medicamento receitado para o filho. “Devido às fortes dores de dente que ele sente, ele está se mutilando. É uma situação que a gente não suporta mais. Precisamos que a secretaria forneça o tratamento adequado e os remédios para uma anestesia geral. Já temos até a dentista que vai cuidar dele, porém, sem a anestesia, ele não consegue ficar parado”, lamenta a mãe.
O caso de Diego foi exposto durante missa dominical na igreja São Judas Tadeu e comparado ao caso de Abdalla. “Enquanto um milionário, dono de uma rede de escolas e que tem dinheiro para comprar remédios recebe o benefício, uma pessoa carente, como esse menino, sofre com a falta de assistência. Por causa da dor, ele se morde e chega a arrancar pedaços do próprio corpo. Isso é revoltante. A prefeitura está bancando o medicamento para amigos quem têm dinheiro”, protestou o conhecido padre Toninho.
Ao visitar a residência de Diego, a reportagem comprovou a gravidade. “Os dentes dele estão inflamados. Estão todos estragados, porque ele não deixa a gente cuidar. A dentista disse que vai fazer o procedimento gratuitamente, mas precisamos da anestesia. O hospital também não permitiu que ele se internasse lá para fazer o tratamento. As dores que ele sente são tão fortes que ele fica nervoso e começa a quebrar tudo dentro de casa”, reclamou.
“Estamos sofrendo muito.No mês passado, o Diego ficou quase o mês todo sem remédios. A prefeitura alegou que não havia psiquiatra para prescrever. É um absurdo. As pessoas que têm dinheiro são atendidas com medicamentos caríssimos, e os pobres, como nós, não têm o mesmo direito”.
Secretaria de Saúde nega pedido de jovem com câncer
O drama vivenciado pela dona de casa Carmelita Maciel, 46, mãe de Emerson Fernandes Maciel, 20, também foi denunciado por servidores municipais ao longo da semana.
O paciente, de família carente, é portador de glioblastoma multiforme, um tipo de tumor cerebral considerado maligno, e aguarda, desde 2013, pelo remédio Temozolamida.
O valor da caixa com cinco comprimidos de 100 mg é R$ 3.002,37. O pedido, assim como no caso do menino Diego, foi negado pela Prefeitura de Betim.
“Meu filho está com câncer na cabeça, e não forneceram o remédio alegando que não existe recurso para isso. Fiquei muito decepcionada. Sei que o SUS não o fornece, mas, se a prefeitura quisesse, tenho certeza de que conseguiria”, disse a mãe.
Para cuidar do filho em tempo integral, dona Carmelita, que mora em uma casa simples no bairro Taquaril, teve que abandonar o emprego e, agora, está desempregada.
A dona de casa explicou que o medicamento foi indicado pelo especialista logo após Emerson passar pelo primeiro procedimento cirúrgico, em abril do ano passado. “Depois disso, ele fez quimioterapia e radioterapia. Porém, o médico disse que, para reduzir o risco de morte, ele precisava tomar esse remédio. Como a prefeitura negou o pedido, tivemos que usar um remédio similar, mas ele não fez o efeito esperado, e o tumor aumentou. Meu filho teve que fazer outra cirurgia em março deste ano. Estou muito revoltada. Roubam o dinheiro da saúde e não cuidam da população”, lamentou.
‘O que o prefeito faz é uma covardia’, diz usuário
A ex-prefeita MDC (PT) não se reelegeu devido, principalmente, ao caos no setor de saúde. A melhoria do sistema era uma de suas principais promessas durante a campanha de 2008, porém, quando ela assumiu a prefeitura, em 2009, o atendimento piorou. Já na gestão dos C4, grupo formado pelo prefeito Carlaile e seus irmãos, Ciro, Cleide e Cleanto Pedrosa, após um ano e cinco meses, a saúde continua mergulhada em uma gestão caótica, marcada pelo descontrole e por medidas injustificadas.
A situação é denunciada por muitos funcionários e usuários. “O que o prefeito está fazendo é uma covardia. Fornecer remédios para ricos, como é o caso do amigo dele, Carlos Abdalla, é covardia absoluta com os pobres”. O desabafo partiu do presidente da Associação dos Pacientes Renais, Doadores e Transplantados de Betim (Asprebe), Valdemar Batista.
Com 40 anos de tratamento intensivo, ele já havia denunciado, na semana passada, a precariedade do setor de hemodiálise do Hospital Regional de Betim, que mantém pacientes renais internados por até quatro meses para suprir a deficiência de medicamentos.
Dois remédios que os pacientes têm dificuldade de conseguir são o fármaco Noriporo, que auxilia na manutenção de níveis de ferro no sangue, e o Cloridrato de Cinacalcete, que controla o hormônio secretado pela tireoide.
“O Noriporo é fornecido pela Secretaria de Estado de Saúde, mas a gente passa por um processo muito burocrático para consegui-lo. Se for para comprar na farmácia, cada caixa, com apenas seis ampolas, custa R$ 70. Em 2013, fizemos um acordo com o município para que esse remédio atendesse a pelo menos 150 dos 210 pacientes cadastrados para hemodiálise no hospital, mas, depois dos primeiros 30 dias, o fornecimento foi suspenso. Esse medicamento existe na farmácia do hospital, e cada ampola custa para a prefeitura R$ 7, mas nem isso altera a precariedade de atendimento. Já o frasco do Cloridrato de Cinacalcete chega a custar R$ 800, e, só o conseguimos através de pedido judicial, depois de muita luta”, disse Valdemar Batista.
Na semana passada, a reportagem já havia denunciado que, devido à precariedade da infraestrutura e à falta de medicamentos no setor de hemodiálise, muitos pacientes têm que permanecer internados na unidade de saúde, ocupando leitos hospitalares que poderiam servir para atender a outros usuários.
Valdemar ainda disse estar revoltado com a entrevista concedida pelo secretário de Saúde, Mauro Reis, que declarou que “o atendimento do SUS é universal e que não faz distinção entre ricos e pobres”. “Na prática, o que estamos vendo não é isso. O ex-secretário de Educação, que têm dinheiro para comprar qualquer medicamento sem recorrer ao sistema público, ganha remédios, mas nós, pessoas carentes, ficamos nesse sofrimento, sem atenção alguma. A prefeitura poderia se entender com o Estado e aliviar o problema dos pacientes renais de nossa cidade”, disse.
A Secretaria de Saúde não se manifestou sobre as denúncias que atingem o setor de hemodiálise. O prefeito Carlaile Pedrosa, mais uma vez, não quis dar entrevista.


